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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ASPIRAR À VERDADE É ASPIRAR, À DIVINDADE


PLUTARCO E OS 
“MISTÉRIOS DE ÍSIS E OSÍRIS”

(Por Rodrigo Peñaloza, 15-III-2016)


Escrevi há muito tempo um resumo sobre os mistérios de Ísis e Osíris conforme a narração de Plutarco. Julgo conveniente começar com uma citação que extraí da parte 1 da obra De Iside et Osiride, de Plutarco: “Porquanto nada, para o homem, é mais grandioso receber nem, para Deus, é mais augusto agraciar que a verdade”.



AdicionaPlutarco (depois de sua conversão em cidadão romano, 
Lucius Mestrius Plutarchus) é o nome de um filósofo e biógrafo grego, 
nascido em 46 e falecido na mesma cidade de Queroneia, (atual Kaprena, 
região da Beócia) Grécia, em 119. Passou a maior parte de sua vida 
nesta mesma cidade, tendo estudado matemática e filosofia 
na Academia de Atenas (a mesma concebida por Platão) sob 
a responsabilidade de Ammonius, mais tarde vindo a ocupar 
altos cargos públicos.r legenda (InfoEscola)

Sabe-se que o culto de Ísis foi introduzido na Grécia antes de 330 a.C, o que é comprovado por inscrições em Peiraeus. Assim, é natural que, na própria cidade em que Plutarco (50–120 d.C.) nasceu houvesse cultos egípcios e inscrições referentes a Serápis, Ísis e Anúbis. O conjunto das obras morais de Plutarco, conhecido por Moralia, é imenso e, com certeza, a mais popular é a que ficou conhecida com a versão latina do título: De Iside et Osiride. Apesar da presença marcante da religiosidade egípcia na Grécia, Plutarco não era agudamente versado em cultura egípcia, mas certamente possuía um cabedal de conhecimentos razoavelmente elevado quanto a esse tema, provavelmente em decorrência das fontes a que teve acesso, principalmente Heródoto.

Abstraindo-nos, contudo, de pequenos erros constantes na obra, ela é, mesmo assim, reconhecidamente majestosa. Fato interessante é que a obra De Iside et Osiride é dedicada a uma sacerdotisa de Delfos chamada Cléa, a quem Plutarco também dedica uma outra obra de sua Moralia, aquela que fala da bravura das mulheres. Só nos resta imaginar quão esplêndido há-de ter sido o caráter dessa sacerdotisa.

Exporei aqui o mais sucintamente possível o conteúdo da obra de Plutarco sobre os Mistérios de Ísis e Osíris. Os sinais “§” indicam a seção da obra a que se faz referência.


A. Mistérios de Ísis e Osíris

Ísis e a busca da Verdade (§§ 1–7)

A felicidade, que consiste no conhecimento da Verdade, é a mais augusta concessão divina. Plutarco o diz — e assim o reproduzimos na citação que introduz este ensaio -, logo no começo da obra, dirigindo-se a Cléa: “porquanto nada, para o homem, é mais grandioso receber nem, para Deus, é mais augusto agraciar que a verdade”. Se o homem é imortal, a imortalidade só se justifica pela possibilidade de se conhecer a Verdade. Assim, aspirar à Verdade é aspirar, ao mesmo tempo, à Divindade. Conhecer a Verdade é ser sábio: e Ísis é a deusa da Sabedoria. A sabedoria transcende a razão: ela requer o pensamento filosófico mais profundo. Com efeito, conforme afirma Plutarco, o verdadeiro isíaco recebe a tradição e submete-a à razão, aprofundando a Verdade pela filosofia.

Deus fez o Homem imortal com o objetivo de que conhecesse a Verdade e usufruísse da felicidade. Ísis é um símbolo dessa busca. Quando Plutarco diz que o iniciado nos Mistérios de Ísis deve submeter a tradição à razão e aprofundar a Verdade pela filosofia, quer dizer que os ensinamentos transmitidos aos iniciados isíacos devem ser objeto de reflexão racional, ou seja, de interpretação. O aprofundamento da Verdade sugere uma ampliação gradativa do conhecimento ou das possibilidades interpretativas. É uma afirmação, portanto, de que o conhecimento da Verdade, nos Mistérios de Ísis, também se dá através de graus nos quais o iniciado se aproxima cada vez mais da Verdade.

Os fundamentos dos mitos (§§ 8–11)

Os princípios que os egípcios introduziram em suas cerimônias não são fundamentados em superstições. Têm, ao contrário, fundamento em princípios morais, razões de utilidade, lembranças históricas ou explicações deduzidas dos fenômenos naturais. Tanto é assim que Plutarco adverte que, ao ouvirmos o que a mitologia egípcia relata, não devemos tomar tudo literalmente, mas interpretar.

Plutarco esclarece que, nos Mistérios de Ísis, os relatos mitológicos têm dois lados: o exotérico e o esotérico. O exotérico decorre do relato tal como é; o esotérico decorre do esforço interpretativo do iniciado.

Relato do mito de Ísis-Osíris-Tífon (§§ 12–19)

Aqui começa o relato do mito de Ísis, Osíris e Tífon, segundo a narrativa de Plutarco. Dado que devo ser sucinto, omitirei muitos detalhes, mas, espero, sem afetar a coesão lógica da história.

Réa, deusa do céu, teve uniões secretas com Cronos, deus da terra. O Sol — ou, ainda, Rá, o olho diurno do rosto celeste -, tendo descoberto, amaldiçoou Rá desejando que ela não pudesse dar à luz. Hermes, que dela era enamorado, jogou dados com a Lua, arrebatando-lhe a septuagésima segunda parte de seus dias de luz, formando, assim, cinco dias (com efeito, 360 ¸ 72 = 5, de modo que, adicionando-se esses 5 aos 360, temos os 365 dias do ano religioso). Nesses cinco dias adicionais, os egípcios celebravam o aniversário dos deuses. No primeiro dia nasceu Osíris; no segundo, Aruéris; no terceiro, Tífon; no quarto, Ísis e, no quinto, Néftis, que uns chamavam Teleuté e Afrodite ou ainda Vitória. Tífon, porém, nasceu de uma forma abrupta, fora de seu tempo e rasgando o flanco materno de um só golpe. Por essa razão, o terceiro dia dos dias adicionais era considerado nefasto. Ísis e Osíris, enamorados desde o ventre, uniram-se.

Osíris passou a reinar os egípcios, tirando-os das privações e da ignorância, percorrendo toda a terra para civilizá-la. Na sua ausência, Ísis mantinha estreita vigilância contra as investidas de Tífon, por natureza, malévolo. Regressando Osíris, Tífon planejou matá-lo. Inteirou-se das medidas do corpo de Osíris e construiu um ataúde com as mesmas medidas, decorando-o maravilhosamente e apresentando-o em um festim. Todos, no festim, ficaram arrebatados e Tífon prometeu presenteá-lo àquele que nele coubesse perfeitamente. Obviamente, apenas Osíris coube no esquife. No momento em Osíris lá estava, todos os convidados correram para fechar o ataúde, aprisionando-o lá dentro. Em seguida, o caixão foi jogado ao rio e deixado chegar até o mar pela boca Tanítica. Os Pãs e os Sátiros, que habitavam os arredores de Chemnis, uma cidade do Alto Egito, mais tarde chamada Panópolis, foram os primeiros a saber da tragédia, espalhando a notícia com espanto, a população ficando subitamente atemorizada pelos fatos. Desde então esse temor que tomou conta do povo passou a ser denominado pânico, em lembrança do dia de terrores alardeados pelos Pãs.

Quando Ísis soube, cortou uma mecha de seus cabelos, vestiu-se de luto e saiu vagando amargurada, perguntando a todos que encontrava sobre o paradeiro do esquife. Umas crianças que encontrou finalmente lhe indicaram o paradeiro. Ela também descobriu que Osíris uniu-se com sua irmã Néftis, pensando ser Ísis, e que dessa união nasceu uma criança chamada Anúbis. Encontrou a criança e alimentou-a, convertendo Anúbis em seu guardião e acompanhante.



Em seguida, avisaram-lhe que o esquife estacionara ao pé de uma tamareira, no território de Biblos. O rei de lá mandara cortar o tronco em que estava o esquife invisível e fazer com ele uma coluna para sustentar o teto de seu palácio. Ísis foi para lá, permanecendo silente, pranteando somente. As damas da rainha acolheram-na, pois Ísis se oferecera para entrançar-lhes os cabelos e impregná-las com o perfume que seu próprio corpo exalava. A rainha, encantada com a estrangeira, mandou chamá-la, fez dela sua amiga íntima e nomeou-a ama de leite de seu filho. Ísis, em vez de dar-lhe o seio, punha o dedo na boca da criança, queimando o que havia de mortal em seu corpo. Esse procedimento perdurou até que a rainha, tendo descoberto que Ísis queimava-lhe o filho, privando-o do privilégio da imortalidade, lançou agudos gritos. Foi só então que Ísis descobriu sua qualidade de deusa. Pediu, assim, a coluna, desprendeu-a, cobriu-a e ungiu-a, confiando-a aos cuidados do rei e da rainha. Ao encontrar o caixão, prostrou-se sobre ele, soluçando tão agudamente que o filho mais jovem do rei ficou como morto. Com a ajuda do filho maior do rei, ela o pôs em um navio e zarpou.

Conta Heródoto que, antes de sair em busca do féretro, Ísis confiou seu filho Hórus, que tivera com Osíris, a Outit, para protegê-lo das emboscadas de Tífon e guardá-lo até terminar sua busca. Esse detalhe não aparece na obra de Plutarco, mas esclarece o trecho seguinte da obra, §18, em que Plutarco diz que Ísis, antes de ir em busca de seu filho Hórus, depositou o féretro de Osíris em um lugar afastado. Tífon, porém, descobriu o esconderijo e cortou o corpo de Osíris em quatorze pedaços, lançando-os ao vento. Ísis partiu novamente, agora em um barco de papiro e em busca dos pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, menos o falo, pois, quando Tífon o atirou ao rio, comeram-no o lepidoto, o capatão e o oxirrinco. São peixes e crustáceos da região. Para repor o membro, Ísis construiu uma imitação, daí a celebração do falo pelos egípcios.

Quando Osíris voltou dos infernos, treinou seu filho Hórus para o combate contra Tífon. O combate terminou com a vitória de Hórus. Tífon, amarrado, foi entregue a Ísis, mas esta o libertou. Hórus, indignado, arrancou-lhe da fronte o diadema real. Mas Hermes substituiu o diadema por uma peça com a forma de cabeça de vaca e pôs sobre a cabeça de Ísis.

Osíris, depois de morto, uniu-se novamente a Ísis e dessa união nasceu Harpocratas, prematuro e de pernas débeis. Para uns, Harpocratas é Hórus criança, o Sol nascente.
Para outros, é o Sol no inverno.

As formas e o conteúdo dos mitos (§§ 20–31)

Plutarco rejeita a ideia de que os mitos relatem fatos tais como realmente ocorreram. O mito é a imagem de certa verdade que reflete um mesmo pensamento em diferentes ambientes, “como nos dão a entender esses ritos impregnados de luto e tristeza aparente, essas disposições arquitetônicas dos templos”. Plutarco ilustra essa generalidade com mitos do Egito e da Assíria.

Plutarco também rejeita a ideia de que os mitos apenas relembrem ações históricas de grandes homens ou deuses. Considera mais razoável (junto com Platão, Pitágoras, Xenócrates e Crisipo) a ideia de que os mitos relatem os reveses de “Gênios”. Gênios são homens dotados de uma natureza espiritual superior. Ele diz que “Ísis e Osíris, que foram bons Gênios, foram convertidos em deuses devido às suas virtudes, da mesma maneira como o foram Hércules e Dioniso”. Plutarco aborda aqui, por conseguinte, os fundamentos sócio-históricos dos mitos. Os mitos podem relatar os reveses de homens espiritualmente superiores que viveram entre nós e cujas vidas (ou o significado delas para os seus contemporâneos) foram retratadas, simbolicamente, nos mitos. Esses homens espiritualmente superiores (os gênios) foram elevados à categoria de deuses pelos próprios homens. Os ensinamentos desses gênios foram transmitidos a todos, como se verifica pela diversidade dos mitos em diferentes ambientes, em diferentes nações, mas refletem todos eles um mesmo pensamento. Essa unidade de pensamento se manifesta na natureza lúgubre dos mitos, ou seja, nos aspectos da morte, do sofrimento e do renascimento, e, também, na arquitetura dos templos.

Para ele, portanto, os diferentes mitos possuem um eixo comum.

A tríade Osíris-Ísis-Tífon (§§ 32–55)

Plutarco esboça interpretações mais filosóficas da tríade Osíris-Ísis-Tífon. Começa mencionando os que fazem a associação: Osíris = Nilo; Ísis = Terra; Tífon = mar. Segue apresentando outras interpretações baseadas nos fatos naturais (estações da seca, da chuva, fenômenos astronômicos, como eclipses etc.) até concluir que Tífon simboliza tudo que é nocivo na natureza (§45).

Com o intuito de interpretar a dualidade Osíris-Tífon, faz menção a uma doutrina muito antiga, a de que dois princípios opostos (regularidade e irregularidade) estão mesclados na Natureza. Faz, então, a associação (§52). Osíris é a Alma do mundo, inteligência e razão. De Osíris emana toda regularidade, tudo que é constante e saudável com relação às estações, temperatura, periodicidades etc. Tífon é tudo aquilo que, na alma do mundo, há de apaixonado, subversivo, irracional e impulsivo, tudo de perecível e nocivo no corpo do universo. Simboliza todas as desordens causadas pelas irregularidades e intempéries das estações, eclipses do Sol, ocultações da Lua. É a força opressora e constringente, é o transtorno, o salto para trás.

Após associar Osíris e Tífon ao princípio (hermético) da dualidade, interpreta Ísis como (§§53–55) sendo a Natureza considerada como mulher apta para receber toda geração.

Em suma, Osíris simboliza o princípio universal que torna o universo ordenado e regular. Ísis simboliza a Natureza, enquanto matéria-prima que potencialmente pode receber qualquer forma impressa pelo princípio ordenador. Tífon simboliza os desvios da regularidade, seja por deficiência, seja por excesso.

A tríade Osíris-Ísis-Hórus (§§ 56–66)

A natureza mais perfeita e divina compõe-se de três princípios: inteligência, matéria e mundo organizado (cosmo, o produto da união dos dois primeiros princípios), tríade essa simbolizada pelo triângulo retângulo de lados 3, 4 e 5, que Platão também ilustra na República:




Osíris concede os princípios. Ísis os recebe e distribui. Hórus é o mundo ordenado, resultado, ou melhor, síntese do princípio ativo de Osíris e do passivio de Ísis. Tífon é a perturbação pelo excesso ou pela deficiência.

Plutarco apenas reforça o que foi comentado quanto aos §§32–55, mas acrescenta a interpretação de Hórus, o filho de Osíris e Ísis. Hórus é o cosmo, o mundo ordenado e belo, fruto da inteligência organizadora que atua sobre a matéria-prima do universo.

Unicidade do conteúdo simbólico dos ritos (§§ 67–73)

Assim como o sol, a lua, o firmamento, a terra e o mar são conhecidos por todos os povos, ainda que por nomes diferentes, assim também essa razão única que regula o universo e as potências que a ajudam são objeto de homenagens e denominações que variam com a diversidade dos costumes. Esses diversos nomes e ritos servem de símbolos de uma verdade só: o princípio ternário do universo.

Plutarco afirma que a forma dos ritos varia, mas que seus significados simbólicos são universais e apontam todos para a mesma verdade. Dentro do contexto cultural em que se insere, o dos Mistérios de Ísis, Plutarco faz um belíssimo chamamento à tolerância religiosa e cultural e à visão de que todos os homens compartilham do mesmo desejo pela verdade.

Razões de utilidade (§§ 74–80)

Na parte final sua obra, Plutarco afirma que certos símbolos referem-se a fenômenos úteis ao Homem, isto é, que certos símbolos foram criados devido ao seu caráter educativo.

B. Conclusão

O que subjaz a obra de Plutarco não é propriamente o mito de Ísis e Osíris e suas diversas interpretações, mas um profundo sentimento de tolerância religiosa e cultural. Ao apresentar os diversos níveis interpretativos do mito, Plutarco deixa claro que, sob diversas formas, o mito é comum a todos os povos, pelo menos os principais povos conhecidos da época, embora a substância seja a mesma. E, principalmente, que em todos os casos, o que move a celebração do mito em cada povo é a busca da Verdade. Ele retoma, assim, a abertura da obra, quando diz que a busca da Verdade é o maior presente dos deuses aos homens e o melhor presente que os homens podem receber. Dessa forma, Plutarco defende a ideia de que todos os homens, não importando a cultura nem a religião, ainda que por caminhos aparentemente diferentes, são irmãos em busca de uma mesma Verdade Universal.



*Postagem: Rodrigo Peñaloza
*Imagens: Reprodução


sexta-feira, 29 de julho de 2016

4 NOBRES VERDADES - Sangye Nhyengpa Rimpoche

Temos capacidade de nos liberarmos 
de todo o sofrimento?

De acordo com o pedido que foi feito para falar sobre os meus estudos budistas e a visão, sobre como pratiquei baseado neles e no que acredito, gostaria de aproveitar esta ocasião para falar sobre o que penso. No que diz respeito aos estudos budistas inicialmente eu era um estudante.

Depois de meus estudos, tornei-me professor da doutrina budista e também trabalhei como representante do diretor da escola. Com base nesta experiência descobri que poderia ser de leve benefício para os outros.

Dentro de tradições budistas, temos muitas reflexões sobre a vida humana comum e sobre o benefício associado às formas como usamos nossa vida. É benéfico explicá-los e, de uma maneira geral, estas reflexões são como se seguem.
 Sangye Nhyengpa Rimpoche


NOTA: Os colchetes inicialmente usadas para indicar palavras adicionadas pelo tradutor para uma melhor compreensão e / ou fluência do Inglês, foram removidos nesta tradução para a conveniência do leitor. Neste mundo, existem muitas raças e sociedades humanas diferentes. 

Mesmo dentro das sociedades, há muitas maneiras diferentes de pensar. Por isso acredito que, embora as religiões, raças e culturas são diversas, todos eles compartilham o mesmo objetivo. Não importa que tipo de pessoa possa ser, todo mundo é semelhante no desejo alcançar a felicidade e em não querer o sofrimento. 

Em termos de visão mais ampla, pode-se dizer que há muitas religiões no mundo e cada uma dessas religiões tem inúmeros pontos de vista distintos e maneiras de fazer valer as suas posições filosóficas. Por exemplo, mesmo dentro do budismo muitos debates tiveram lugar na Índia no passado. Havia também muitos debates no Tibete entre os estudiosos individuais sobre a maneira de praticar a visão budista e fazer valer os seus princípios filosóficos. Às vezes, contudo esses tipos de debates não são muito relevantes. Dentro das sociedades a prioridade é a necessidade de desenvolver um bom coração. 

Tendo apresentado primeiro a importância de gerar um bom coração como sendo a raiz de todos os pontos da visão budista, agora elaborarei sobre esse assunto. 

Neste mundo, muitas guerras acontecem em nome de religiões e há muitas disputas sobre economia e política. Qual é a raiz de todos esses conflitos? A causa principal é que o caráter natural do ser humano é ser desonesto, falso, ter fortes desejos egoístas e apenas uma pequena inclinação para beneficiar os outros. Como resultado, infelicidade considerável acontece neste mundo. Isso fica evidente quando se investiga através de raciocínio lógico. 

Todos os distúrbios de todo o 
mundo aparecem da fixação ao ego e do apego

Há muitas religiões diferentes neste mundo, as principais são Budismo, Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, e Hinduísmo. No entanto, porque há diferentes maneiras de fazer valer os pontos de vista dessas religiões, a pessoa tende a não aceitar a posição alheia. No entanto, o único fundamento de todas essas religiões é a bondade amorosa, uma mente altruísta, uma mente voltada para o despertar, ajudar os outros, evitando prejudicar outros seres sencientes - em suma, uma atitude de beneficiar os outros, tanto quanto possível. 
Estes são os fundamentos básicos presentes em todas as religiões. Portanto, somos capazes de inferir que essas religiões têm o mesmo objetivo. Por exemplo, dentro do budismo, o professor da doutrina budista, o Abençoado, e da mesma forma os líderes que ensinam os caminhos de outras religiões, todos ensinam, com sinceridade e de forma genuína, o caminho de não prejudicar os outros. Esses próprios professores já trilharam por esse caminho e eles nos ensinam, seus seguidores, esse caminho que nós certamente temos de seguir. No entanto, apesar de nós, os praticantes, contarmos com as instruções do professor, às vezes somos incapazes de seguir estes exatamente e nossa prática torna-se distorcida. Quando aplicado incorretamente, nós seremos incapazes de praticar de acordo às instruções dos professores da religião individual e assim não poderemos segui-los autenticamente. Por essa razão, se nós somos seguidores ou não, nós todos compartilhamos do mesmo objetivo. Se somos religiosos ou não, todos temos o inato sentimento da necessidade de conquistar a felicidade e de evitar o sofrimento. Quando pensamos dentro do âmbito budista, compreendemos o fato de não querer o sofrimento e querer a felicidade. Portanto é relevante este ponto de reflexão sobre a necessidade de como abandonar o sofrimento e como conquistar a felicidade. A esse respeito primeiro, o professor (o Buddha) ensinou as Quatro Nobres Verdades. Se alguém perguntar, será que temos em nós a capacidade de nos liberarmos de todo o sofrimento, a possibilidade de abandoná-lo, a capacidade para esgotado-lo? Sim, temos. Essa é a Verdade do Caminho, e sua seqüência é considerada da seguinte forma. Não importa se alguém é religioso ou não, todo precisam aplicar os ensinamentos das religiões. Pode haver diferentes termos que são usados em diferentes religiões para os princípios básicos de uma prática, mas estas explicações dizem respeito à prática comum a todas as religiões. Ao explicar o sofrimento, pode ser dito que há um tipo grosseiro de sofrimento que nós, seres sencientes comuns somos capazes de sentir e experimentar. Contudo, seres sencientes comuns não podem sentir a existência de um tipo sutil de sofrimento dentro dessa consciência grosseira. 

 "Eu não quero o sofrimento e devo abandoná-lo"

Existem dois tipos de sofrimentos que podem ser experimentados - um sutil e um grosseiro. Quando falamos sobre o tipo grosseiro de sofrimento, geralmente é sobre uma grande doença, em termos de nosso corpo. 
Sabemos que este é o sofrimento. Quando experimentamos dificuldades e infelicidade na nossa mente, nós também somos capazes de sentir que estes são o sofrimento. Além disso, se não formos capazes de realizar nossas necessidades pessoais, grande angústia mental surge. Sofrimento mental também é criado quando as coisas que nós não precisamos ou não queremos ocorrem. Esses tipos de coisas são o tipo grosseiro de sofrimento. Sem precisar pensar muito sobre isso, logo que estamos sofrendo, somos capazes de reconhecê-lo como tal. Isto é referido como o tipo de sofrimento grosseiro. 

O que geralmente é chamado o tipo sutil de sofrimento também existe em nós, mas nós não somos capaz de senti-lo dentro na nossa presente consciência grosseira. 

Falando geralmente, todos os seres sencientes têm cinco agregados: um agregado de forma, de sentimento, da percepção, da formação (mentais) e da consciência. Assim que nascemos em qualquer mundo naturalmente temos esses cinco agregados como a base do nosso ser, que é o lugar para o tipo grosseiro de sofrimento. Desde o início, há uma fundação, uma única raiz, da qual todo sofrimento grosseiro surge. Se não a temos, o sofrimento grosseiro não poderia surgir em nós. Há também um tipo sutil de sofrimento associado com esta fundação, o lugar decorrente do sofrimento grosseiro. Quando é que o tipo sutil de sofrimento pode ser visto? Quando nós sinceramente nós nos engajamos em muitos estudos sobre a consciência presente, nossa consciência torna-se constantemente mais clara e clara. E desse modo esta presente consciência deixará de ser grosseira. 

Devemos avaliar até que ponto somos capazes ver o sofrimento sutil. Depois de estudar e contemplar a consciência presente, a qualidade da nossa mente vai aumentar. Eventualmente, quando as qualidades de nossa mente são aumentadas, a mente não permanecerá indomável como é agora. Quando a mente se torna clara e calma, alguém será capaz de entender diretamente, baseado na experiência, o que é a fundação, o lugar do surgimento do sofrimento grosseiro - o assim chamado de "sofrimento sutil" – é na verdade. Portanto, a fim de compreender o tipo sutil de sofrimento, é essencialmente necessário que treinemos a nossa mente. 

Donde o professor (o Buda) começou, quando ele ensinou o Dharma? A partir do fato de que nós precisamos entender o sofrimento. 
Esta é a raiz. Não há sequer um único ser senciente que deseje o sofrimento. Por esta razão, que tipo de objetivo precisamos desde o início? É muito importante no início refletir sobre o fato de que não precisamos de sofrimento e que o sofrimento não é real. Portanto, devemos pensar: "Eu não quero o sofrimento e devo abandoná-lo". Enquanto refletimos sobre este pensamento, quando adotamos uma atitude que deseja se libertar do sofrimento, que métodos existem que nos permita abandoná-lo imediatamente? Não há o imediato, mas ao mesmo tempo precisamos abandonar esse sofrimento. Uma vez decidido que você não o quer, deve realmente investigar donde este sofrimento inicialmente surge. Para isso é importante reconhecer a fundação, a raiz, que é o local proveniente do sofrimento. O segundo ponto, neste contexto, é sobre a causa e a raiz do sofrimento, que estão se apegando a um ego e emoções negativas. 

Há emoções negativas que perturbam nossa mente. Essas emoções negativas que nos perturbam e aos outros são os pensamentos de ódio, raiva e inveja. Quando a mente se torna totalmente grosseira e má ela também pode fazer a mente de outros grosseiros, maus e infelizes. A mente assim não tem paz nem felicidade. Dúvidas e miséria constituem esta mente escura, negativa. Diz-se que esta é a raiz de todo o seu sofrimento. 

Em nosso mundo, até mesmo os animais, que são seres não- humanos, têm, desde o início um problema devido à noção de "eu"; primeiro, o "eu" precisa de algo bom para mim. Por causa da noção de "eu", "eu" penso que ter grandes dificuldades e descontentamento não é desejável, e que ótimo é ser alegre e feliz. No entanto, "eu" pensa muito pouco sobre o fato de que não é bom quando os outros estão sofrendo e "eu" debilmente tem pensamentos de desejo sobre como é bom se outros fossem alegres e felizes. 

A maioria das pessoas pensa que quando o sofrimento ocorre a eles não é bom e o que é bom se alegria e felicidade acontecem.  Portanto, há sempre grande fixação ao ego e grande apego a si em suas mentes. Todos os distúrbios de todo o mundo aparecem dessa fixação e do apego.

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*Postagem: Jardim Dharma
*Imagem: Reprodução